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8/27/2003

nada a provar 

Nada a provar nada a negar. Pensar. Pode ser interessante ler mas muito também o experimentar. Pensar sem medo e reflectir sobre esses pensamentos, construir teses sem vergonha do que os outros pensem. Pode ser que se abram novas portas e outros mundos assomem…


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De que são feitos os sonhos? 


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comando 

Penso em árvores e pedras com uma alma que poderia residir numa espécie de consciência molecular. Poderia também incluir os animais. Não é uma ideia original mas continua a ser vista como mera curiosidade sem validação. Não defendo a ideia porque não posso defender o que não consigo minimamente comprovar. Mas, ultrapassando a estranheza do assunto por ser um conceito que não faz parte do nosso mundo realista, que tem de tão absurdo? Todos os seres organizados (animais e plantas) não são um conjunto de células especializadas e organizadas de modo a executarem tarefas específicas? Quem as comanda, quem as organiza? Quem lhes diz, em cada momento e situação o que fazer? O cérebro! Mas onde está o cérebro das plantas, por exemplo? E quem comanda o cérebro dos animais? Não é ele também uma conjunto de células especializadas e organizadas? E os automatismos de alguns dos nossos órgãos , como se explicam? E porque há células que desobedecem às ordens do cérebro (doenças, comportamentos involuntários, medos,…), como é isso possível se ele tudo comanda? Será mais extraordinário admitir um certo nível de inteligência molecular (e autonomia) do que fazer do cérebro um autêntico Deus a que nada escapa e que tudo explica? Porque, afinal… quem lhe conferiu esse papel uma vez que ele nem sequer fazia parte das primeiras formas de vida?

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Amanhecer auditivo  

O rural e o urbano são diferentes mas ambos belos. Assistir ao amanhecer na cama, adiando o momento de levantar, os olhos fechando e abrindo, os sons do novo dia entrando no quarto juntamente com o som da luz. Estar na rua, ver e ouvir como as coisas acordam e se espreguiçam. Nas aldeias há um despertar gradual, espaçado e suave feito dos cantos de galo, os primeiros cantos de pássaros, portas que se abrem rangendo, cães que ladram só para dizer “cá estou eu” , vozes isoladas e perfeitamente audíveis lá fora dando instruções de trabalho ou os primeiros bons-dias a quem já passa a caminho do seu terreno. Separando esses sons um silêncio claro e banhado do orvalho matinal. Rodas de carroça, cascos de burro ou rodados de tractor surgem por fim e o amanhecer está cumprido. Na cidade tudo é mais rápido e contudo , à medida da sua vida. Há também os cantos dos pássaros das árvores da praceta ou da rua, os choros dos bebés arrancados da cama a caminho dos infantários; as canalizações dos prédios dão sinal de que há gente em pé preparando-se para sair; as portas dos automóveis abrem e fecham, frases rápidas entre pais e filhos entrando no carro a caminho da escola. Rapidamente tudo isto deixa de ser audível, abafado pelo barulho dos motores em marcha. Carros, autocarros, burburinho de vozes de uma multidão que de repente vai invadindo as ruas. Gosto do pôr-do-sol mas não passa de uma imagem fugidia e silenciosa, um rápido momento entre dia e noite que nos pode passar despercebido. O amanhecer impõe-se, entra-nos pelos ouvidos e também pelos olhos, recebendo as subtis luminosidades que invadem os espaços ou adivinhando os movimentos lá fora. Com a manhã todos os fantasmas partem pois é o tempo dos homens, da respiração.
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8/26/2003

procuro 

Procuro coisas novas interessantes: novos autores, pensadores, músicos, realizadores. Está difícil. Ou fui eu que mudei? Ou já cansei de variações sobre os mesmos temas?
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8/23/2003

Casa típica  

Existe algo do tipo:"Casa típica portuguesa da primeira metade do séc. XX"? Algo tipo museu, que se pudesse visitar e onde se tomasse contacto com os objectos, cheiros e sensações das casas em que viviam os portugueses de então? Senão há nem vai haver é mais um pedaço da nossa história que se vai perder para sempre. É diferente ver um ambiente reconstituído com os seu componentes integrados de ver esses componentes espalhados por museus e mini-museus temáticos ou mesmo por antiquários.
Sei que não existia uma casa típica mas várias, consoante a região. Isso seria uma segunda fase do projecto a ver. Tenho é pena que desapareçam no esquecimento ou desenquadrados objectos como a arca do trigo, a salgadeira (antigo frigorífico), a queijeira (armário dos queijos), o lagar na loja, a pipa do vinho, o púcaro de barro, o cântaro, o pote, a bilha da água fresca, a talha das azeitonas, a cesta da fruta, o cabaz, a almotolia do azeite, a candeia para iluminar, os candeeiros de petróleo, as correntes da lareira onde se penduravam os caldeirões e as panelas de ferro em que se cozinhava, os móveis de madeira maciça e entalhes decorativos, o lavatório de ferro, a vassoura de giestas secas, o poleiro das galinhas, os lençóis de linho bordado, os quadros com santinhos e pratas brilhantes, os "naperons" abundantes, as camas de ferro, o bacio, a bacia, o mocho (pequeno banco de madeira), a cruzeta (antigo cabide de madeira), as loiças de esmalte pintado...

E na cidade, como era? A torneira da água canalizada com um design único, o contador do gás, o fogão rasteiro de duas
bocas, o lava-loiça de pedra de mármore grosseiro, a mesa de cozinha com gavetas e portas, os candeeiro de cristais, os naperons, o saco bordado do pão, o fervedor do leite, a marmita da comida, o candeeiro de mesa...

Tanta coisa a perder-se no desfragmentar da história, das vivências e memórias.

Há países onde apresentam ao turista coisas assim ou mais simples...aos montes.
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Todas as guerras 

responda ao teste:

Em última análise, para além das justificações e dos pontos de vista, todas as guerras e conflitos que, em cada momento, eclodem e se perpetuam no mundo, querem dizer o quê?

1- que a consciência humana e as suas derivações - sensibilidade, sentido artístico, etc. - é um acidente que o homem quer mas ainda não sabe utilizar; é, pois, uma ilusão de diferenciação e superioridade face aos restantes seres vivos;
2- que, debaixo dessa máscara, o homem é um mamífero territorial e competitivo como qualquer outro, predominando o seu instinto agressivo e a ausência da fraternidade, conceito inventado por algum lunático num rasgo de consciência aguda;
3- que a racionalidade do homem tem um âmbito ainda muito elementar, quer nos temas quer no espaço a que se aplica: racionalidade para mim e para as minhas coisas;
4- que, dada a complexidade da acidental razão humana, é mais fácil usá-la para as básicas e imeditas agressão e conquista do que para a resolução de problemas comuns à espécie;
5- que a diferença em relação ao homem das cavernas é só a tecnologia (geralmente de guerra) que o homem desenvolveu graças à sua acidental e confusa diferenciação morfológica e mental mas a atitude face ao que o rodeia é basicamente a mesma: desconfiança, medo, ataque como a melhor defesa, ataque na dúvida;
6- que o conflito faz parte da natureza humana ao contrário da entreajuda;
7- que Homem é um estádio superior da espécie humana só conseguido por alguns; não basta nascer-se homem, é preciso tornar-se Homem.

solução: inclino-me para a 7, desde que ouvi, no filme "Waking Life" a ideia de um filósofo que dizia algo do género: é maior a distância entre os génios como Platão e o homem comum do que entre este e um macaco.

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o homem e a morte dos animais 

No meu post anterior sobre os elefantes e a morte eu disse:
"Quando é que o homem justifica a sua pretensa sensibilidade humana e reconhece que, mesmo a milhares de quilómetros, comprando uma peça de marfim de elefante está a puxar o gatilho sobre estes seres especiais tão inútil e estupidamente assassinados?"
O mesmo se pode aplicar a muitos outros seres estupidamente massacrados para pura vaidade e ostentação humana ou por gozo de estranhos conceitos de desporto que teimam em chamar-se de "tradições", sem qualquer sentido ou necessidade. Felizmente ao menos o uso dos casacos de pele vai caindo em desuso.
Já basta a violência da sobrevivência, a única que, apesar de tudo, tem um sentido.


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os elefantes e a morte 

Impressionam-me, sensibilizam-me, emocionam-me até as atitudes dos elefantes que vi nalguns programas do Odisseia (tv por cabo) sobre a morte. Parecem ser o único animal para além do nós que tem consciência desta.
1- Se a manada passa pelas ossadas de um cadáver elefante todos se detêm, analisam, acariciam, cheiram e passam de tromba em tromba os ossos. Já se constatou que quando há algum grau de parentesco esta manipulação é mais demorada. Parece um ritual de homenagem;
2- Os elefantes tudo fazem para evitar a morte de um membro da manada. Uma cria que enfraquece por falta de água e fica para trás, quase inanimada, faz que toda a manada volte, que incentive a vítima a continuar. A mãe fica desesperadamente a empurrar a cria e só é abandonada quando há a certeza que nada mais há a fazer. Durante uns dias após a morte da cria a manada ainda volta para se certificar que morreu.
3- os ditos cemitérios de elefantes não são mais que lugares com água e sombra onde os espécimes velhos gostam de acabar os seus dias. Por ferimentos ou por idade os elefantes têm a noção da morte que se aproxima e aceitam-na, tentando torná-la agradável.

Entretanto elefantes de toneladas continuam a ser mortos só para lhe serem retirado os dentes. Como se pode ainda dar valor ao marfim?
Quando é que o homem justifica a sua pretensa sensibilidade humana e reconhece que, mesmo a milhares de quilómetros, comprando uma peça de marfim de elefante está a puxar o gatilho sobre estes seres especiais tão inútil e estupidamente assassinados?

Por incrível que seja parece que a própria natureza ou a consciência incompreendida destes seres já está a fazer com que muitos novos elefantes nasçam sem dentes. Não é espantoso?

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8/22/2003

o braço em falta 

Continuo a escrever com o braço esquerdo partido e ligado. Não impossibilita mas dificulta. É como desenhar sem poder segurar a folha de papel. Experimentem. Por vezes falta uma letra porque o indicador direito pensa que o médio esquerdo fez a sua parte. Ou há letras a mais porque os dedos agora disponíveis carregam com demasiada força.
É que os nossos gestos tornam-se mecânicos e quando falta uma peça... Desculpem lá o incómodo.
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ideias desfeitas - sobre portugal 

Claro que, tal como a minha esposa brasileira do Rio Grande do Sul, se irrita quando a metem no mesmo saco do Rio de Janeiro também nós, portugueses, somos vítimas dessas visões redutoras sobre nós mesmos. Agora que a Amália e o Eusébio passaram um pouco à História, quem somos nós? o país do Figo? Lisboa? a Expo? o CCB? bacalhau?
É perturbador constatar como, apesar das mudanças políticas, sociais, económicas e culturais pós 74, continua a ser difícil tipificar a actual sociedade portuguesa. Quem vai regularmente ao interior ou à chamada "província" vê que muitas das mudanças são apenas verniz exterior. Continua a existir uma grande diferença entre o país rural, tradicionalista, conservador e uma cultura urbana pseudo-moderna, virada para a aparência e as modernidades.
A aldeia ainda são as procissões, os mordomos das festas, os emigrantes que vêm de férias no verão, os baptizados, os crimes passionais, a morte por assistência médica ineficaz, as missas. Tudo como era antigamente apenas revestido de umas colorações mais modernas: as novas igrejas são mais frias e despojadas, as festas são animadas por empresas de espectáculos, automóveis em vez de carros de bois. Mas no campo há cada vez menos gente e as tradições estão um tanto despojadas de sentimentos verdadeiros. Mortos os últimos idosos as aldeias morrem, ficam à venda para empreendimentos turísticos. Os poucos jovens têm, normalmente, empregos na cidade mais próxima e pouca ligação têm às suas raízes culturais. Vivem num limbo de ilusões comodistas, mera gestão do dia-a-dia.
As cidades cada vez mais tentam descolar do pelotão mas quantas vezes sem o esforço de pedalar, antes aproveitando o cansaço ou as quedas dos outros. Tudo se resume a estar a par e usar os telemóveis de última geração, o último modelo da marca automóvel, ter um emprego de fato cinzento, camisa azul e gravata estapafúrdia, gel no cabelo, internet. Não esquecer de frequentar restaurantes típicos em grupo e comida de plástico no dia-a-dia. Comprar os cds dos artistas internacionais na moda, frequentar as discotecas com dance-music, ler Paulo Coelho.
Então, afinal, hoje, o que é Portugal e quem são os portugueses para um estrangeiro? o país do Figo? dos Madredeus?
Qual o nosso contributo particular para a comunidade internacional? Que há de específico em nós agora que já nem o fado parece ser um cartão de visita oficial?


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ideias feitas - sobre o Brasil 

A minha esposa já se cansou de tentar combater algumas daquelas irritantes ideias feitas, tão redutoras e básicas. Quando percebem que é brasileira lá vêm os inevitáveis "Ah, da terra do samba" ... "Mas és muito branca para brasileira"... "então dás-te mal com o frio de cá"...
Pacientemente ela tenta explicar algo tão simples como a ideia de que o Brasil não é só isso e muito menos é todo igual. Basta pensar na sua dimensão. No Brasil também há regiões frias, (ela gosta do frio), há neve, também há pessoas brancas, louras de olho azul e diversas culturas. São mais de uma centena de milhões de pessoas. Mas, mais difícil que fazer passar essa constatação é interessar o interlocutor: se não se trata de samba, qual o interesse? Gaúchos brasileiros? Quem são esses?

Muitas pessoas bastam a sua visão do mundo com um punhado de ideias feitas, imutáveis ao longo dos mapas e do tempo. Para elas o Nordeste são as praias maravilhosas e nada tem a ver com a tragédia do Sertão. Os crimes em S. Paulo mostram como o Brasil é violento, etc. Paroles, paroles.
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bacalhau e pedofilia 

E no entanto... Portugal, portugal... onde já vai aquela ideia do país dos brandos costumes que antes até achávamos tão alienante?
Continuam a surgir diariamente, na imprensa, as notícias de crianças violadas e usadas durante anos ou meses por vizinhos, por pais, por avós. Este país é o mesmo ou apenas sabemos agora das doenças que sempre nos corroeram secretamente?
Como se podem ainda usar aqueles "clichés" do portugal europeu versus países do terceiro mundo? Chega sempre uma hora em que temos que tirar a cabeça da areia e ver as coisas como são. A sociedade portuguesa tem muitas das doenças que nos horrorizam nos outros. Não somos especiais a não ser em coisas secundárias que passam pela sardinha assada, comer caracóis e celebrar os Santos Populares.
Quanto a comparações não se esqueçam de aspectos relativos que darão uma melhor dimensão dos nossos tumores: somos só dez milhões, somos um país que se atravessa numa tarde e só meia dúzia de cidades são dignas desse nome.

Confesso que o orgulho de ser português já foi mais fácil.
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pessoal mas dizível 

Distraí-me um pouco e reparei que há dois dias que não escrevo. Por vezes parece-me autista falar das pequenas coisinhas ou dos estados de alma quando ao nosso redor se continuam a desenrolar as tragédias das várias sociedades (incluindo a portuguesa). Mas cada um tem o seu papel, não é? Não podemos todos ser médicos, jornalistas, Madres Teresas. Deposito, esperançoso, esses papéis meritórios em quem tem mais qualidades que eu. Também não quero que o meu bloguesinho seja um pseudo jornal ou uma tribuna no deserto. Vou continuar, assim, nesta linha meio pessoal meio social, sem tentações de "iluminador" mas com preocupações de "lembrador".

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8/20/2003

gavetas 

As gavetas e prateleiras estão cheias de criações que ficaram à espera de vez. Ao longo de anos acumulámos ideias, projectos de acção, poemas, textos, guiões, desenhos, fotos... Custa deitar fora, mas de que servem quando passou o tempo e até já nem nos identificamos com o que fizemos?
Quando se é famoso tudo isso pode ser leiloado ou pode fazer-se um museu, uma Fundação.
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na CGD - os amigos 

Na Caixa Geral de Depósitos trabalham muitos dos meus amigos. Não são aqueles de infância, dispersos pela país e pela vida, a quem acabei por perder o rasto nas passadas vagas de emigração para subúrbios sem nome. Na CGD estão os amigos de profissão e de convívio diário ao longo de anos e que, independentemente do grau de intimidade, mantêm um contacto mais ou menos permanente. Também isto é amizade. Já não exijo que para chamar amigas às pessoas elas tenham que saber tudo de mim, ser minhas confidentes ou baterem-me à porta a qualquer hora.
O tempo dos amigos de infancia passa com a idade, o tempo dos confidentes passa quando deixamos de ter segredos e quando deixamos de ser o centro do universo.
Agora só quero que a amizade se traduza em respeito, interesse mútuo, simpatia, boa-vontade, o gosto dos momentos partilhados.

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8/19/2003

atentado à ONU 

Já não cola o argumento a que muitas vezes fechamos os olhos da lucidez de que os colonialistas (americanos, israelitas, castelhanos...) não deixam outra alternativa senão o uso da força. Por um lado já chega de inocentes mortos em atentados cegos. Por outro lado, um atentado contra a ONU é o uso da força contra a comunidade internacional, é pretender legitimar as armas em qualquer situação, é regressar à lógica da barbárie, pretende consagrar o absurdo direito do um contra todos.
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país queimado 

Pois é! Às vezes é nas áreas menos nobres da governação que surgem as grandes questões!
Os governantes já perceberam que, apesar de tudo, ainda existem portugueses nos campos, que Portugal não são só as cidades?
E agora que há poucas árvores e mato para segurar as águas, já pensaram nas futuras enxurradas?
Já perceberam a importância real de uma Protecção Civil ou vão criar mais umas estruturas e cargos de papel?
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ainda alguns males da abundância 

Antes (digo, há umas décadas) era relativamente fácil estar a par e partilhar com os outros. Na música, na escrita, nas artes, na moda... havia os clássicos, os actuais, os marginais... e pronto! Como o mundo era perfeitinho até na sua actividade criativa disciplinada. Muitas vozes ficavam para trás porque nem conseguiam entrar num mundo demasiado disciplinado e exigente para quem pretendia ter algo a mostrar.
Agora, na oposta sociedade consumista, do desperdício, da velocidade, da abundância, os heróis são fabricados à medida, todas as semanas surgem best-sellers de novos escritores-modelos-actores, os tops musicais sucedem-se a ritmo quase diário com nomes que surgem do nada, que não trazem nada de novo, os filmes duram uma semana em cartaz e são sempre mais falados e mostrados antes da estreia do que durante a curtíssima exibição.
Que aconteceu com o apregoadíssimo segundo Matrix? onde está? quem viu? Que é feito dos geniais Coldplay?
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os males da abundância 

Por definição, por natureza, a abundância deveria ser sempre boa. Mas nem sempre e acho que é um dos grandes males do mundo desenvolvido. Para além da função essencial dos produtos que é a de satisfazerem certas necessidades é claro que é agradável e por vezes útil ter margem de variação e de escolha. Ninguém quer ter de andar de uniforme. Mas quando se chega a um ponto em que há tanta variedade de cada produto - sejam relógios, escritores, telemóveis, canções, roupas, etc - parece-me que se cai, inevitavelmente, no supérfluo, no artificial, no forçado. Recursos que fazem falta noutras áreas importantes da actividade humana - por exemplo a saúde, a investigação - são canalizados por este sistema pretensamente regulado pela livre concorrência para a produção de coisas desnecessárias que pouco ou nada acrescentam ao que já existia. O marketing cria as necessidades e a publicidade faz o resto.

Há ainda um problema colateral: torna-se cada vez mais difícil sentirmo-nos parte de um grupo, ideologia ou nação quando os gostos e fruições são cada vez mais individuais e personalizados. A abundância pode levar ao isolamento?

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8/18/2003

blogues 

Tanta gente com tanto para dizer! Porque é difícil a atitude "bloguiana" (neologismo?) numa conversa directa, num encontro de amigos? Parece que hoje existem dois níveis de comunicação principais:
cara a cara - para as trivialidades, conversas de circunstância, informações práticas, passar o tempo;
internet - para as considerações mais profundas e pessoais.
Mas há aqui qualquer coisa que não está 100% bem. No cara a cara, num encontro de amigos, sabemos para quem falamos, temos resposta, interacção. Na net, nomeadamente nos ditos blogues, não fazemos ideia se alguém e quem nos lê, se estamos a falar sozinhos; e no entanto é aqui que nos aprofundamos.
A net é uma defesa, um muro atrás do qual ousamos e pretendemos ter coisas interessantes a dizer sem necessidade de credenciais?
A net satisfaz o nosso desejo obscuro de ser uma voz com auditório universal em vez de se ficar pelo grupo de conhecidos? Dá-nos a ilusão de um espaço nas vozes que se escutam?
A net é o nosso cantinho seguro para sermos o escritor que sempre sonhámos ser?
Não serei eu quem vai desvendar este mistério. Fica só a preocupação.
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estantes de livros 

Já se aperceberam de que, hoje em dia, não é fácil comprar uma estante para livros? O que sempre existe nas lojas de móveis são aquelas estantes quase inúteis para "bibelots" mas nada para livros.
As estantes caíram em desuso? Deixaram de ser um elemento das casas? Ou foram os livros?
Parece que a alternativa fácil continua a ser aquele móvel grandioso e pesado com espaço próprio para a TV, uma porta de vidro para uns copos e aperitivos, umas gavetas em baixo e prateleiras largas para as enciclopédias e outras colecções encadernadas que ninguém voltou a ler.
A mim sempre me impressionaram as grandes estantes só para livros no meio da sala ou no escritório. Estantes, regressem.
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8/17/2003

imagens 

Tenho inveja das imagens que intercalam os textos do Abrupto. Pronto, está dito.
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ARTE E HABILIDADE ou VIRTUOSISMO  

Acabemos com as confusões:
nada têm em comum, a não ser que um artista deve ser habilidoso na sua arte mas o inverso não é verdadeiro. A habilidade é uma qualidade de execução e é requerida ou pode manifestar-se seja em que área for. Um habilidoso pode copiar na perfeição a Mona Lisa mas com isso não cria arte porque não existiu uma atitude de reflexão e concepção estético-filosófica mas apenas um exercício técnico com regras de reprodução perfeitamente definíveis.

Poderemos ter em atenção algumas nuances nesta questão. No canto e na execução instrumental, em que também se reproduz música criada por um compositor, embora também seja frequente a mera imitação (habilidade) existe quase sempre uma qualidade que é a interpretação, a qual já ultrapassa os limites da execução e entra na esfera da criação e da arte.

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de novo o futebol 

Já aqui falei mas insisto: porque esta divisão dos noticiários em "notícias" propriamente ditas e futebol? Já agora porque não a gastronomia que parece interessar a todo o português? Parece-me uma prepotência este facto consumado de que qualquer "traque" de um jogador mais conhecido ou de um coronel dono de um clube dê lugar a extensas coberturas televisivas.
Diariamente assistimos a conferências de imprensa em que todos falam: jogadores, presidentes, treinadores, adjuntos; diariamente temos reportagens dos treinos, dos estágios, das partidas e das chegadas, resumos dos jogos, entrevistas. O futebol tem mais tempo de antena que qq outra categoria noticiosa específica. Ainda se ao menos déssemos cartas no panorama internacional! Mas uns somam troféus e nós deliciamo-nos com a telenovela do futebol de boca. E temos que aturar isto diariamente!
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lá vai lixo! 

Será fixação minha ou são, precisamente, os ocupantes dos carros mais "modernaços", tipo "JIPES" e quejandos mas não só, os que mais atiram lixo para a estrada? Não têm conta as vezes a que assisto a essas cenas inqualificáveis que me fazem acordar e relembrar que estamos no terceiro mundo.
Maços de tabaco, guardanapos e lencinhos, latas de bebida, até jornais inteiros já vi serem atirados dessas janelas.
Será que essas pessoas se acham indignas de terem que ser asseadas como o vulgar cidadão? Sentirão que lhes estão a roubar uma liberdade - a de serem porcas - ou trata-se apenas de comodismo e cobardia a coberto do facto de estarem em movimento?
Quando perceberemos, de uma vez por todas, que as pequenas coisas, os pequenos gestos, são importantes para o nosso crescimento e para a visão que os outros têm de nós?
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8/16/2003

atendimento português 

O acto de comprar seja o que for numa qualquer loja portuguesa poderia ser objecto de um ensaio interessante sobre os conceitos dos portugueses de "profissão" , já para não falar do atendimento nos serviços. O que é mais estranho é que parece que é a coisa mais normal da vida o tipo de atendimento habitual. Apesar do desrespeito, da absurda contrariedade ou do simples desinteresse (o objectivo de um vendedor não é vender?), da obrigação, da falta de paciência de quem vende aceitamos como se fosse a coisa mais trivial, não se chama a atenção, não se protesta, não se escreve no Livro de Reclamações porque é chato (????).
É normal o vendedor não informar correctamente, não mostrar o mínimo interesse em resolver o nosso problema, é normal o cliente pedir queijo de ovelha e servirem-lhe um de cabra, pedir Cola e servirem Pepsi sem perguntarem se o podem fazer, pedir uma laranja descascada e dizerem-nos que isso não fazem... (mas esperam a gorjeta "obrigatória" no final)enfim, esses abusos e essa falta de flexibilidade habituais.
Já é tempo de os consumidores acharem normal é ser tratados como tal e não como uns chatos que querem estragar a rotinazinha de quem vende.
Há um restaurante a que gosto de ir porque, além do prato escolhido pela lista, posso alterar os seus componentes e o próprio empregado colabora nesses re-arranjos. Não é uma norma da casa mas descobri que se pode fazer isso. Obrigado!! Já não tenho paciência para os restaurantes que só conhecem a batata-frita e a cenoura ralada, seja qual for o prato e que não podem trocar porque NÃO ESTÁ PREVISTO!!!!
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só o mal é notícia ou a "CAIS" 

Num mundo tão cheio de coisas más já repararam que as coisas boas raramente são notícia? De quem é a culpa? Dos media ou das audiências - o velho problema do ovo e da galinha? Parece que já só a tragédia e a desordem nos prendem o interesse enquanto notícia, enquanto facto. Não estamos a criar uma ideia demasiado pessimista deste mundo já tão difícil? Não estamos a deixar de lado a Esperança?

O modo como sobrevivem os marginais, os desenraizados, fornece inúmeras notícias para nosso prazer mórbido. E a sua recuperação através de projectos imaginativos e práticos, como a revista "CAIS", p. ex.não é mais noticiável que a banalidade da desgraça destas pessoas? Porque o Bom deixou de nos fascinar, de nos interessar?
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O SÍMBOLO ou Jung 

O SÍMBOLO é uma entidade fascinante. Não se pode defini-lo, só entendê-lo. Isso é difícil. De vez em quando volto ao velho Jung para me fazer mergulhar no profundo dessas águas interiores.
"O Homem e seus símbolos" - ed. especial brasileira, Nova Fronteira - é um livro fascinante como um bom livro de histórias. Não sei se se consegue arranjar por cá.
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O LIVRO QUE NÃO PASSA DA INTRODUÇÃO 

Na minha cabeça amontoam-se resmas de textos incompletos.

Sempre me perdi na introdução quando tentei fazer literatura sobre um tema. Tenho um número considerável de escritos que se ficaram por esta nobre e ingrata parte.

Eu que nunca pensei ser escritor de livros, sempre ambicionei escrever “O Livro”, um livro total que, não sei bem como - daí que sempre me perdi nas introduções - contivesse a Verdade. Não um tratado no sentido clássico em que se inventaria e disseca um assunto mas um Relatório Total, Multidisciplinar, do real ao esotérico, em que se estabelecessem todas as conexões possíveis, ao longo de toda a história do universo, e se explicasse a essência subtil das mesmas, ou seja, sempre acabasse, explicitamente, na Questão Primordial: Qual a origem, a mecânica e o sentido da Existência (não só da Vida)? Essa é, para mim, a Única Questão, da qual todas as outras são derivadas e que se me impõe inesperada e involuntariamente nas questões mais banais. É claro que este livro não será escrito por ninguém pois esse livro só pode ser o próprio Universo e toda a sua História.
Que pretensão a minha, hein?

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no meio 

Não gosto da harmonia dos anjos nem gosto do caos absoluto.
Gosto do equilíbrio entre ambos, no ponto em que se tornam harmonia caótica ou caos harmónico. Não a harmonia previsível, limitada e cansativa que se aprende em frases feitas e falsos "bom senso" mas a da liberdade, do improviso e do momento, do desejo e da intuição. Não o caos da deriva e da sujeição passiva ao acaso mas o da interacção com o acaso, do adivinhar de caminhos possíveis, do aproveitar da sorte, do aproveitar de imprevistos.

No meio está a virtude? Não sei se é no meio mas é num ponto óptimo de equilíbrio que não tem que ser aritmeticamente ao meio. A virtude e o defeito contrário não têm sempre o mesmo peso.
É bom ser bom ou ser mau? Não seria bom ser só bom. Mas é bom ser mais bom que mau. Acredito. Aqui a virtude não está no meio. Estará em 90 % de bom com 10% de mau, p ex. Para que não enjoe. Para que não se morra de tédio. Um pouquinho de maldade. Uma maldade um pouco inocente ou até divertida.
E que seria de Deus sem o Diabo? Que seca!!!

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novos tiranos 

Dizes que vives no futuro
Dos fantásticos brinquedos humanos
Que eu vivo no passado
E esqueci que havia tiranos

Não esqueci. Tinham nome
E podia apontar com o meu dedo,
O mesmo que hoje não podes apontar
Aos novos tiranos sem nome, sem rosto e sem medo.

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à volta da música  

Estamos a perder o dom da música, a deixar de cantar e tocar e a dependermos cada vez mais da música dos outros, dos profissionais. Só sabemos ouvir a expressão dos outros.
Experimente cantar em casa, no banho, num momento de isolamento. Não se esqueça que não está a ser apreciado por ninguém por isso não se censure e muito menos tenha vergonha. Cante para si e ESCUTE-SE.

A música é inerente ao ser humano e era comum, nos tempos mais recuados, toda a gente cantar nas mais diversas situações: no trabalho do campo, na lida da casa, na oficina, lavando e estendendo a roupa, nos serões e, mais modernamente, no chuveiro.
Toda a gente parece ter esse dom mas cada vez menos o exercita. Hoje em dia transferimos as nossas emoções para a voz dos cantores profissionais e revemo-nos nas suas letras, nas suas histórias, quantas vezes sem qualquer verdade por trás, meras invenções para vender.

A música é uma experiência humana universal, possivelmente desde os primórdios. Não verbal, indescritível. Com trabalho pode descrever-se uma pintura, uma construção arquitectónica, um filme, mas nunca uma música.


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8/15/2003

pessoal - CANCRO:aceitam-se ajudas 

Vou fazer aqui um aparte muito pessoal e peço desculpa. Sofro de cancro mas estou disposto a vencê-lo. Para além da usual quimioterapia tenho esperança na atitude interior e em produtos ditos "alternativos", usualmente classificados de "milagrosos". Com o devido desconto e consciente dos exageros e negócios que há pelo meio dessa indústria alternativa, QUE TENHO A PERDER?
O problema (e é aqui que peço a vossa ajuda) é que quase sempre se tratam de produtos de difícil ou inexistente importação. Quando procurava nas nossas lojas especializadas em produtos naturais raramente encontrava esses produtos, por exemplo, "Noni" do Hawai, "Cálcio de coral", etc.
Se souberem da comercialização em Portugal desses ou outros produtos "milagrosos" digam-me, ok?
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violência lusitana 

Num dos diários de hoje pode ler-se o resumo:
"Violência: Companheiro é suspeito de tentativa de homicídio
AGREDIDA COM UM CUTELO
A Polícia Judiciária anunciou ontem a detenção de um homem, sobre o qual recaem fortes suspeitas de ter tentado matar a companheira, de 20 anos de idade, agredindo-a com uma arma branca."

Quer queiramos quer não há ainda demasiados aspectos da mentalidade lusitana em que não passámos da Idade Média. Os crimes passionais mais bárbaros continuam a ser comuns por esse país fora. Em segredo até parecem sancionados pela moral tradicional de muitos embora ninguém o confesse. Qual a nossa concepção de amor, de relação, de ser humano?
Obcecamo-nos em comparar os nossos indicadores económicos com Turquias e Grécias mas não é só nos indicadores económicos que um país se retrata nem nos deve servir de consolo a comparação "novo-riquista"com o pior que nós. O mal está na base, o mal são os portugueses e estas suas cabecinhas estupidamente orgulhosas de arcaicos comportamentos ditos típicos.
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canadá -paraíso perdido? 

O Canadá era daqueles países que, um pouco como a Suíça mas sem as suas conotações menos dignas, me habituei a ver fora das problemáticas internacionais, com um bom nível de vida, uma organização eficaz, um paraíso . Ultimamente parece que as coisas estão a mudar, para meu desencanto pessoal: a crise da gripe foi o que se viu, com o governo a desmentir irresponsavelmente o que era óbvio; o terrorismo parece também não excluir o canadá dos seus alvos potenciais; o apagão americano atingiu o canadá... enfim, o tempo do paraíso acabou.
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apagão americano-apagão civilizacional 

O recente e súbito "apagão" mericano e canadense mostram como a poderosa civilização ocidental assenta em estruturas tão complexas mas tão falíveis como sejam a rede de energia eléctrica. E quando o problema for mais grave? Como sobrevive o ocidente à falta de luz?
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8/14/2003

legalização por casamento-o desrespeito pelo cidadão português 

Sou casado com uma brasileira, há 2 anos. Poderia ser uma portuguesa ou uma francesa, mas o amor escolheu uma brasileira.
Como estou em casa reformado e doente, apesar de relativamente novo, optámos por viver só com a minha reforma para que a minha esposa possa cuidar de mim. Assim, ELA DEIXOU DE TRABALHAR e, consequentemente, não pôde voltar a renovar o visto de trabalho, como vinha fazendo, como faz qq emigrante.
Mas era preciso tratar da legalização. Ingenuamente pensámos que, pelo casamento, esta seria mais fácil, óbvia e pertinente. Qual quê!!!
Para além da prévia desconfiança que está sempre presente em relação a esta situação há um total desrespeito dos funcionários do SEF quanto às pessoas em causa. Não só a minha esposa, cidadã brasileira, mas em relação a mim, cidadão português, que não conto para nada neste processo. Há agressões verbais, burocracias sem casos especiais, incompreensões. Quanto à minha doença só restam requrimentos de urgência que algum manda-chuva num gabinete vai tomar em conta ou não, conforme lhe apetecer.
Ou seja, tudo estaria bem se ela trabalhasse e fosse vulgar imigrante, mesmo que com contrato falso.

Não pode um português casar com quem quiser? Não pode um casal optar pelo tipo de vida que quer incluindo o traicional modelo de uma família doméstica?
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Pensamos ou repetimos pensamentos dos outros? 

Todo o pensamento que nos vem à cabeça e achamos disparatado, isto é, não conforme com o pensmanto válido, deitamos fora, quando muito não resistimos a contá-lo a alguém próximo como uma anedota e depois esquecemos. Por exemplo: "Vê lá tu, estava aqui a olhar para o cão e comecei a imaginar o que eu sentiria se ele começasse a falar comigo!" Porque temos tanto medo de muitas das ideias (teses?) que nos ocorrem, espontâneas ou fruto de alguma reflexão em cadeia, quando não baseadas em/coerentes com opiniões reconhecidas, pesquisas documentadas ou estatísticas publicadas?
Porque aceitamos, conscientes ou não, várias auto-censuras: - nada há a acrescentar ao que está dito, não somos ninguém para pensar de outra forma, a nossa cabeça vale menos que as outras, a verdade mais provável é a compartilhada pela maioria, numérica ou qualificada, se não é comprovável pela estatística a tese não tem interesse, não há lugar para novas hipóteses, o que estou a pensar é um disparate pegado, ninguém daria atenção mínima a esta ideia absurda.

Aparentemente assim é. Tudo leva a crer que assim é. Assim nos ensinam que é. Porque assim é necessário que seja para que nos possamos entender em sociedade. Como poderia o mundo funcionar se todas as ideias exigissem o mesmo reconhecimento, o mesmo estatuto de validade? Já lá dizem os ditados: "cada cabeça sua sentença" e "quem muito fala pouco acerta" que é com quem diz, não podemos andar aqui todos a debitar opiniões. Para isso, nós sabemos, há técnicos especializados, com formação apropraida, há estudiosos, ensaístas reconhecidos, intelectuais de créditos firmados, em suma, OS PENSADORES, os fazedores das ideias credíveis (dominantes ou alternativas). Há também OS CERTIFICADORES, os que, em caso de dúvida, atestam a validade das ideias. Aqui se incluem todo o tipo de críticos, historiadores, professores e legisladores

Não estou a por em causa esta estrutura. Se estamos a falar de sociedade talvez tenha que ser assim ou algo parecido. Nesta sociedade, pelo menos. Outra…também não conheço. Nem é isso que está em causa. Contudo, antes da sociedade, estamos a falar de Eu e TU, dos nossos pensamentos silenciosos, dos nossos monólogos mudos, do nosso acto de pensar. Enquanto falamos connosco não temos que nos policiar. Só quando falamos com os outros teremos que filtrar o que dizer, escolher as palavras consonte o interlocutor, o objectivo da conversa e o nosso objectivo (a não ser que, felizmente, estejamos a falar com alguém com quem queremos partilhar e esteja disponível para ouvir as nossas histórias sem filtros. Caso contrário será um desastre e será rotulado de louco ou idiota.

Conversemos sem filtros. Não sempre mas em momentos de inactividade, de preguiça. Exercitemos a imaginação, a crítica e auto-crítica. Não é uma perda de tempo como podem pensar. "Se não me serve para nada, porque perder tempo em devaneios?" Quanto mais não seja servirá para não perder o hábito de pensar livremente. Pensar sem filtros é um incentivo à libertação e expressão desse mundo de ideias mirabolantes que continuamos a deitar constantemente para o lixo só por ignorarem as regras do chamado pensamento válido o qual só admite excepção na Arte. Para além do sociedade e dos seus interesses há algo neste esquema que podemos pôr em causa: o nosso papel e lugar individual enquanto pensadores.

Temos ou não direito ao disparate, à fantasia, ao sonho, à intuição… ao inexplicável?

Formalmente ninguém questiona que cada um tem o direito pensar mas na prática…como há sempre alguém que já pensou sobre o assunto, pensou melhor e mais fundamentadamente, com reconhecimento público, etc, etc, que nos resta? Aceitar e repetir o que esses outros pensam sobre os assuntos e, se a memória nos permitre, até fazer citações, o que é sempre um sinal de cultura. E os nossos pensamentos? Aqueles que nos saltam à cabeça ou que nos vêm por associações incontroláveis e que depois, por comparação com as verdades oficiais, nos parecem tão ridículos, tão sem sentido, tão pessoais e esquisitos que até nos envergonhamos de os ter? Que destino lhes damos? Caixote do lixo. Apagar rapidamente.
Mas…se não damos nenhuma utilidade aos pensamentos que não sejam o espelho do pensamento dos outros, não estaremos a…deixar de pensar? Não estamos a transformar-nos, sem perceber, em fotocopiadoras mais ou menos perfeitas? Na melhor das hipóteses não somos apenas, cada vez mais, resumos e compilações dos pensamentos alheios (um pouco à semelhança daqueles alunos que para qualquer trabalho sobre um tema recolhem umas passagens de meia dúzia de autores, trocam as linhas, misturam, acrescentam três ou quatro redundâncias de sua autoria e pronto!)?

A aprendizagem e educação tradicionais continuam válidas em tudo o que digo. Precisamos de informação e bases para pensar. Precisamos de valores de partida. Só não devemos abafar o nosso pensamento autónomo mesmo que pareça idiota. Se não serve para aplicar à nossa vida prática serve, pelo menos, para nos manter vivos e únicos. E ser artistas. Pois estes não são mais que livres pensadores com um prtexto aceite para comunicarem as suas ideias sem filtros.

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Notícia e Desporto (Futebol) 

Há coisas a que nos habituamos e só tarde de mais questionamos. Uma delas, para mim, é o espaço cativo do desporto (ou melhor, do futebol) em qualquer bloco noticioso seja na televisão ou na rádio. É a coisa mais natural do mundo. Mas será mesmo? E porquê?

O único argumento possível que me ocorre é o de que a grande maioria das pessoas gostam de desporto (futebol). Não sei que censo prova que assim seja e menos ainda se não esquecermos as mulheres na contagem. Suspeito que essa ideia não é mais que uma verdade adquirida sem qualquer verificação prática, do mesmo modo que se continua a dizer que a maioria dos portugueses são católicos. Mas ainda que assim seja, por esta ordem de ideias não deveria a informação incluir, então, um bloco católico com a agenda das cerimónias, nomeações de padres, etc. E que dizer sobre a gastronomia, p. ex? Não são os portugueses em geral amantes do bom garfo? Não haveria uma imensa audiência para receitas, divulgação de restaurantes para todos os gostos, volumes estomacais e carteiras, eventos gastronómicos "à borla" , etc?



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8/13/2003

Noticiário ou telenovela? 

Noticiário ou telenovela?

Quem vê com a mínima regularidade os noticiários da tv poderá sem dificuldade aperceber-se que o conceito de notícia degenerou no de telenovela.

Passo a explicar.

- O argumento continua de um episódio para o do dia seguinte; há cenas e “flash-backs” que pouco adiantam mas servem para fazer “render o peixe”; de vez em quando surgem umas cenas explosivas para renovar o interesse (cenas que podem não ter seguimento posterior).

- Os actores são sempre os mesmos embora com novas aparições e desaparecimentos temporários.

Estas são algumas características das telenovelas que me parecem encaixar perfeitamente no actual noticiário português. Meia dúzia de personalidades e assuntos dominam a maioria das notícias nacionais para além do omnipresente futebol.

O conceito de notícia confunde-se com o de opinião, auscultação, reportagem e degrada-se constantemente. Para além do facto principal a notícia é esticada ao máximo com reportagens e entrevistas complementares que por vezes se tornam patéticas, tão evidente é o intuito de apenas gerar "casos" e audiências. Tudo é possível de ser afirmado desde que apresentado como "hipótese" mas sabe-se que o veneno fica a actuar e à espera de um segundo passo. Enquanto passam diariamente sempre estas mesmas novelas (ditas notícias) omite-se completamente ou referem-se quase como curiosidades toda uma série de eventos nacionais e internacionais que, por vezes, são mencionados muito tempo depois, já noutro contexto.

A título de exemplo, o que foi noticiado sobre o Forum Social Português que decorreu entre 6 e 10 de Julho de 2003?


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abertura 

a loja do veneno abriu agora. Tenciono falar muito deste pequeno Portugal e dos seus tí­picos portugueses. Do comentário aos factos do nosso quotidiano surgirão reflexões mais abstractas.
Espero conseguir partilhar.

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